Exposição Antes da linguagem
Data(s)
25/11/2025
a
23/12/2025
Cidade
Belo Horizonte
Galeria Albuquerque - R. Antônio de Albuquerque, 885 - Funcionários, Belo Horizonte - MG, 30112-011
Disciplinas

A exposição, na Galeria Albuquerque Contemporânea de 25 de novembro a 23 de dezembro, faz parte do programa "Da Espinouse ao Espinhaço"
Entre as sombras que se esticam entre o anoitecer e a luz difusa da madrugada, no silêncio da noite, os pés pisando a terra parecem mais leves — como movidos por uma delicadeza maior, para deixar a geografia acidentada das montanhas descansar depois das trepidações das máquinas que devoram, dia após dia, as suas entranhas.
No crepúsculo banhado pela lua cheia, as arestas das montanhas se suavizam. O barulho das escavadeiras dá lugar ao sussurro do vento, à canção dos rios e ao farfalhar das folhas. A luz carrega nas pedras e nos cristais uma energia adormecida; os insetos reorganizam um mundo microscópico, e as escalas da geografia parecem se confundir: o infinitamente pequeno se revela imenso, enquanto as montanhas, sob a luz prateada, parecem encolher diante do mistério da noite.
É neste limiar — entre o dia e a noite, o microscópico e o macroscópico, o visível e o invisível — que Emma Charrin direciona sua atenção. A artista pousa sua lente sobre os interstícios da terra como quem ausculta o pulso de um corpo vivo. À medida que seu olhar se aprofunda nas dobras e relevos do solo, somos levados a um estado de transe: a topologia acidentada se transforma num mar de ondas, e parece possível capturar o movimento imperceptível das montanhas que se deslocam, lentamente, em um tempo próprio — o tempo geológico, o tempo da paciência e da cura.
Antes da linguagem fala desse tempo: o tempo das montanhas, o tempo da regeneração, o tempo da escuta. É um convite a conviver com uma natureza ferida, que ainda grita, mas cuja voz pode ser ouvida se silenciarmos o ruído das máquinas e do progresso cego. A alegoria do crepúsculo evoca o declínio, mas também aponta um ponto de inflexão — o intervalo entre o fim e o recomeço, entre aparição e desaparecimento. Nesse momento suspenso, a artista propõe a possibilidade de outra relação com a terra: mais sensível, mais simbiótica, mais atenta às pulsações do mundo subterrâneo.
Entre objetos, fotografias, serigrafias e fragmentos de videos e paisagens quase abstratas, Charrin compõe uma trama narrativa que é ao mesmo tempo fabulação e diário de viagem. Através de sua pesquisa em terras mineiras, ela escava não apenas o solo, mas também camadas de memória, de história e de mito.
No caminhar, parece que a artista convoca forças invisíveis, escutando o rumor da terra, os cânticos das águas, o sopro do vento. Suas imagens funcionam como feitiços de reversão — tentativas de abafar o ruído ensurdecedor das máquinas e de abrir espaço para outros modos de coexistência.
A exposição, desdobramento de uma pesquisa iniciada na França – na região industrial mineira de Dunkerque – e seguida por viagens de pesquisa e uma exposição no Brasil em 2023 e 2024, se organiza como um território sensível, onde ciência e espiritualidade, técnica e intuição, se entrelaçam. O gesto artístico de Emma Charrin não busca apenas representar a paisagem, mas reanimá-la, fazê-la falar. Através de um olhar microscópico, ela transforma a superfície do mundo em uma pele viva, pulsante, onde cada grão de terra carrega o registro de uma transformação em curso.
Entre o visível e o imperceptível, Antes da linguagem convida o espectador a experimentar o tempo da terra — um tempo que nos ultrapassa e nos contém. Ao atravessar suas imagens, percebemos que a paisagem não é apenas um cenário, mas um corpo em transformação contínua, um espelho da própria condição humana diante do planeta que habitamos.


